O primeiro sexo

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O primeiro sexo

20 de junho de 2016 Assédio causa Literatura Mulher 0

Ontem eu sofri assédio, você sabe como é isso. Eu queria te contar, na verdade, queria mesmo era desabafar contigo.

Na hora, eu me peguei pensando se eu tinha provocado o que aconteceu. Se minhas roupas tinham passado uma mensagem errada, talvez a maquiagem, meus gestos ou palavras. Bobagem, eu sei.

Com o frio que está, não havia qualquer pedaço de pele à vista, meu batom não era vermelho e, no máximo, eu trajava salto alto, pois achei adequado.

E não acho, não creio que meus gestos ou minha fala tenham dado espaço pra esse desrespeito e violência.

Isso me fez lembrar por que há anos eu desisti de ser mulher.

Deixa eu explicar como é isso. Eu gosto de ser mulher, sou bastante feminina e adoro o fato do meu corpo me permitir ser mãe. Mas eu odeio o papel destinado à mulher em nossa sociedade.

Na minha cabeça, ser mulher é conviver com o medo de ser vítima de uma violência (afinal, você, a vítima, foi a culpada pelo estupro coletivo) ou ser tachada como vadia, o que no fundo é tudo a mesma coisa.

Eu não quero, eu não aceito ser nenhuma das duas coisas.

Nem acho que sou uma boneca pra ser exibida ou admirada tão simplesmente por minha beleza física. Eu sou maior que isso.

Não aceito precisar me preocupar em me casar, ter filhos ou encontrar o amor da minha vida.

Não quero a limitação de precisar sentar com as pernas fechadas, de não poder sair à noite sozinha. De precisar estar sempre alerta pra não deixar um homem abusar de mim. Eu quero ser maior do que isso.

Sou meus sonhos, as pessoas que ajudei, tudo aquilo que sinto, que vivo e já vivi. Não vejo sentido ser diminuída a meu gênero ou sexualidade. Eu sou muito maior do que isso.

Por isso, eu prefiro, eu escolhi viver sem ser mulher. Continuo me vestindo e me portando como uma aos olhos de todos, mas por dentro, eu sei, só eu sei que eu sou rebelde. E livre.

Pois eu sei que a alma não tem cor nem forma nem gênero.

No universo que escondo dentro de mim, eu sei e me permito não precisar ser bonita ou sexy. Só ser, pois é o que eu sou.

E de vez em quando, eu brinco com essa liberdade. Eu me pinto, me visto bonita e finjo que aceito o personagem. Só porque eu sei que eu posso travesti-lo sempre que eu quiser.

Se eu quiser.

 

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