Adelaide

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Adelaide

25 de novembro de 2016 Amiga Confissões Desabafo Escrita Literatura 0

Eu me vejo em você, amiga.

– Om Tare Tam Soha.

– Lembra quando a gente se conheceu? Você escrevia e eu também.  Sabe, tinha um texto seu, um depoimento do Orkut que eu adorava, me definia tão bem…

– Ha! Lilica.

– Isso, Lilica sapeca, levada da breca. Para de ser Alice um pouco e deixar os homens doidos e vamos juntos andar de bicicleta.

– Ha!

– De bicicleta a gente chega mais rápido. Ah, aquele coelho danado!, rio enquanto me recordo.

– Começando a purificação de Gisele Bündchen. OmTareTamSoha, OmTareTamSoha,OmTareTamSoha…, você responde.

Afago seu cabelo e enquanto você repete o mantra, me vem outra recordação: de que fui eu que o ensinei a você. Nem sabia que eu a tinha levado ao Templo, mas estranhamente, você se lembra.

– Procura aí, procura aí (aponta meu celular) o José Pedro. Achou? Fala pra ele que os nazistas estão atrás de mim porque eu sou alemã. O José Pedro é safo, vai saber como me ajudar.

– Quem é o José Pedro?

– Era pra ele ter sido o pai do meu filho.

– Lembro dessa história. Você me contou logo que nos conhecemos. Foi o aborto, né?

– É muito estranho. Não tem como perder uma criança. Fizeram isso porque queriam roubar meu sangue. Não tem explicação… Os nazistas, os nazistas queriam meu DNA.

Mando mensagem para o José Pedro. Mas antes explico sua situação para que ele não se assuste. Talvez ele possa me ajudar a entender o que aconteceu.

– Há quanto tempo não nos víamos, hein? Sete anos. Quem diria a gente se encontrar assim, eu passando na rua.

– É… Om Tare Tam Soha.

– Você não sente falta de escrever?

– Não (sorri). Om Tare Tam Soha.

– Lembra que você ia publicar um livro?

– A Adriana Calcanhoto é uma salafrária, ela roubou todos os meus papéis. Aquela ladra, pulha.

– Calma, fica calma. Você está com fome? Quer comer?

Saudade da escritora linda que era minha amiga. Não entendo como seus dentes ficaram assim, os da frente se inclinam para além da boca. Foi o cigarro? Sua pele do rosto e das mãos, curtidas de sol, perderam o viço. Sou mais velha que você, mas não parece. E, Adelaide, você fede.

Sentadas ao restaurante, eu pergunto:

– O que você quer comer?

– Peixe, pode ser peixe, pede enquanto fuma.

– E uma coca zero, né? (você sorri) Lembro que você gosta (acaricio novamente seu rosto). Você vai ficar bem. Nós vamos dar um jeito.

Deve ser tão mais fácil se entregar. Desistir de tudo e se deixar levar. Não precisar mais pensar nem se preocupar com nada.

– Ha! Eu vi você em 2010.

– Mas a última vez que nos vimos foi 2009, Adelaide.

– Vi você com seu filho e estava tão feliz que eu…

– Você o quê?

– Que eu não deixei você me ver. Eu não podia deixar você me ver.

– Adelaide… Você continua com fome? Quer uma blusa pra te esquentar lá no seu cantinho?

– Disse a eles que eu não sou mendiga, eu estou acampada.

– Claro que não é.

Não é você, sou eu. Entendo sua insanidade, sou ela também. Lembra o quanto nós éramos parecidas? Duas escritoras com histórias de vida complicadas. Se eu não tivesse um filho, me deixar levar assim como você.

– Om Tare Tam Soha.

– E a sua família, Adelaide?

– Falou com o José Pedro? Foi muito estranho quando eu perdi o filho dele. Os ETs querem roubar meu DNA. O João Moreira Salles, ele sabia que eu estava naquele vídeo dele…

Da minha amiga, só sobrou a casca. Mesmo assim, eu guardo afeição por essa pessoa que não existe mais. Como você mesma disse em um texto que eu nunca conseguirei escrever tão bem: “Eu sinto. Muito.”

 

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