Carnaval sem fim: minha recém-descoberta relação com o samba

 In Confissões, Desabafo

“Ela mexe com as cadeiras pra cá, ela mexe com as cadeiras pra lá. Ela mexe com a cabeça do homem que vai trabalhar.” Ultimamente, não sei por quê, esse trecho da música não me sai da cabeça. Aliás, sei sim a razão. É o carnaval que acabou hoje e eu que vivo na Vila Madalena, já começo a sentir saudades.

Sempre fui roqueira convicta, que literalmente pulava o carnaval. Fazia questão de esperar a época passar trancafiada em casa, sem ousar ligar a tevê. Desfile de escola de samba, globeleza, bronzeado, nada disso nunca foi pra mim. Só que aos poucos o ritmo foi me ganhando. Minha relação com o samba começou devagarinho. Primeiro, um namorado me levou a uma casa de samba e mesmo resistente, gostei de ver que conhecia muitas das músicas. Não há brasileiro, mesmo que se considere da “inteligentzia” como eu, que não conheça Marisa Monte, pontos de umbanda, ou algum enredo de escola de samba. Impossível passar incólume por tais conhecimentos nesta terra. Enfim, solteira, foram amigas que me levaram para dançar em uma das tantas casas de música ao vivo que existem pelas cercanias; e me senti envergonhada por trocar os pés e pisar nos meus pares, assim como não tinha a menor ginga.

Então resolvi que era hora de virar essa página na minha vida. Me matriculei numa escola e desde o ano passado tenho me aventurado no samba de gafieira. Da dança, só tinha tido as aulas de balé clássico de criança, mas agora também me viro no forró e bolero. Foi assim que o samba chegou pra ficar. Hoje além das aulas, ainda saio quase toda semana pra praticar nas casas que povoam meu bairro. Com a experiência que acumulei agora escolho, não sou mais escolhida. Está com bebida na mão? Não quero. Não sabe dançar? Fica pra próxima. Tenta ensinar? Afe, não sabe de nada, inocente.

Só que ainda há outra barreira a ser quebrada.

Agora sei ser par, dançar juntinho, e deixar de ser apenas uma mulher ímpar, pra me deixar ser conduzida. Mas e sambar sozinha, na cara da sociedade? Sei não. Eu tento mexer os pezinhos pra lá e pra cá, só que não chega nem perto daquelas mulheres lindas que povoam as casas de samba. Dizem que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é. Ou é ruim da cabeça ou doente do pé.” Eu devo ser bem doente. Por isso, volta e meia tenho feito aulas. No vídeo acima, alguém registrou minha participação numa aula gratuita no espaço de coworking Plug, entendedores entenderão que eu não danço nada. Logo depois, outro vídeo, só que de uma aula paga que fiz de samba, só que AINDA não compreendi como entrar nesse compasso e acertar o passo. Pelo jeito, falta um toque de melanina, pois ginga eu não tenho (apesar de que a professora era japonesa, vrá na minha cara). E mesmo AINDA não sabendo sambar direito, é impressionante o quanto as “cadeiras” doem do exercício de ir pra lá e pra cá só no sapatinho. Passei a respeitar muito mais o trabalho de passistas que atravessam uma avenida INTEIRA. Cara, não é pra qualquer uma, não é mesmo.

Mas o bacana é que neste ano, pela primeira vez, vivi uma relação totalmente diferente com a data. Fui com gosto participar de um baile promovido por um cliente, e pular nos bloquinhos, que não me deixavam ficar em casa (o som era tão alto que pareciam estar aqui em casa). Fiz diversos amigos, tirei fotos com os mais variados personagens com quem topei pela rua (e benzadeus, não engrossei a estatística daqueles que tiveram o celular furtado): eu me lembro de ter conhecido Chapeleiro Maluco, Van Gogh, o muro cinza da 23 de maio e Lenny Kravitz, mas certeza de que teve muito mais. Também aproveitei para viver minhas fantasias, vestida de Malévola (minha apropriação cultural), noivinha e mascarada, pra sambar vertendo glitter.

Finalmente entendi o sentido de quarta-feira de cinzas. Acabou? Ahhhh. Mas como dizem, estamos no Brasil, logo é carnaval o ano inteiro. No meu bairro, foi só passar o Natal pro ziriguidum tomar conta. Pelo menos, no quesito simpatia ao tema, minha nota hoje é 10. Sei que falta harmonia, mas vem sobrando bateria e evolução na escola do meu coração. Não foi em 2017, mas quem sabe no próximo, eu já não vire destaque? Na vida de empreendedora, eu sambo muito.

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