Da escrita

 In Escrita

Criança, como todos, eu aprendi a escrever. Mas pra mim, foi mais do que isso. Foi a descoberta de um refúgio. Um lugar só meu, onde eu podia expressar o que eu pensava e sentia. Logo comecei a produzir diários, que eu esperava que ninguém lesse. Neles, mentia pra mim mesma e contava histórias inventadas sobre meu cotidiano. A verdade era incapaz de dizer tudo que acontecia dentro de mim.

Dizer que eu escrevia é pouco. Escrever e ler são praticamente a mesma coisa. E eu era uma criança sozinha, meus pais não viam com bons olhos os vizinhos e, assim, eu aprendi a me divertir inventando histórias na minha cabeça. Juntava as bonecas e fazia reuniões. Imaginava-me algum tipo de revolucionária, uma vez que na sala de casa, Che bradava:

– Hasta la victoria siempre.

Só que eu acho que perdi em tudo.

Todas as noites, eu perdia o sono e ficava sozinha na sala de casa, assistindo a filmes de arte. Numa das noites, vi “Orlando, a mulher imortal”, baseado na obra de Virginia Woolf. A estante, que também ficava na sala, era alta e repleta, e eu tinha tempo. De sobra. Foi lá que eu descobri as Reinações de Narizinho e li a coleção completa. Por muito tempo, até pela proximidade do nome, acreditava que era Emília, talvez por isso goste de ser tão questionadora.

Também li “O Príncipe”, e admito que não entendi muita coisa. Talvez eu necessitasse de experiência pra compreendê-lo, mas… pra quê? Não demorou muito pra descobrir a biblioteca da escola, minha fiel companheira de recreio. Lá encontrei “Orlando”, que não tinha em casa, gostei tanto do livro, que após terminá-lo continuava a história, com o mesmo linguajar, dentro da minha cabeça.

Ser criança não me interessava. Então, eu lia diariamente os dois jornais que meus pais assinavam. Lembro de me orgulhar em abrir o caderno de economia em uma viagem de avião. Imaginava que se eu não dissesse minha idade, me tomariam por adulta.

Quando não era eu que inventava, a vida era estranha. Em vez de falar, eu preferia escrever. Isso explica porque sempre adorei as festas juninas. O correio elegante sempre foi minha salvação na hora da paquera, embora eu nunca assinasse com meu nome verdadeiro. Acho que fui a precursora dos sites de namoro. Em vez de estar, eu preferia criar, mesmo que não fosse verdade. Quando escrevia, eu estava segura, e quando lia, eu me relacionava com pessoas como eu, que preferiam escrever.

Quando estava triste, eu desabafava pela escrita, e se estava feliz, também. Até hoje é assim. Se o tempo é de sol, como hoje, apesar dos problemas que me afligem, eu quero agradecer e louvar a tudo isso: a alegria de se estar vivo. E se chove na minha existência, recorro às palavras, que não me faltam, mas borbulham por todo meu ser. Se não escrevo, algo me falta. Hoje é pela escrita que me sustento, mas volta e meia, eu paro, sento-me e escrevo pra mim. Como agora.

Só que eu já não sei a razão para escrever. Expressão? Desabafo? Nada expressa a totalidade. Escrever é preciso. Viver, não. Se não escrevo, algo me falta. Ainda não acho que seja bom o bastante, mas é o que tenho e o que eu sou. Escrevo, logo existo.

Toda vez em que precisei fazer uma meditação ou algo do gênero, e tinha que visualizar um lugar sagrado, este local era uma biblioteca, tamanha devoção que tenho por outros, que antes ou igual a mim, expressam o que veem, o que sentem, e o que é passar por essa experiência de estar vivo.

Escrever não é profissão. Pra mim, é sacerdócio. Por isso, sempre digo que sou uma mulher de palavra. Em todos os sentidos. O que eu digo, se escreve; e eu me vendo. Por palavras. Sigo assim até que a vida, por si só, resolva que é hora de colocar um ponto final, neste romance que se iniciou há décadas com uma simples letra maiúscula.

 

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