Old but gold

 In Confissões

Não me entenda mal, eu adoro tecnologia. Fui uma das primeiras entre meus amigos a ter um smartphone, mas adoro comprar livros no sebo, ver as marcações do antigo dono, as anotações à mão no rodapé da página e, principalmente, as dedicatórias. Certa feita, uma amiga achou um livro com os seguintes dizeres: “Para uma grande mulher”. Guardou-o, devia mesmo ser pra ela.

Gosto do que é antigo, do que guarda história. Uma vez fui a uma loja que parecia ter resistido ao tempo, espremida entre tantas outras modernidades. Não só a loja, mas seu dono se negavam a desapegar do passado, ainda tão presente, num jeito de fazer negócio sem propaganda, sem oferta, mas a velha e boa pechincha, olho no olho. Petulância que me fez respeitá-lo.

Por si só a visita ao estabelecimento já era uma experiência e tanto. Quase uma visita a um museu, mas o que realmente acendeu meu coração foi na hora de receber meu produto: com toda calma, aquele senhor de cabelos cacheados, compridos e ora aqui e ora lá prateados, de calças frouxas seguras por um cinto, puxou um rolo de papel rosado, cortou-o e enrolou minha encomenda, que foi fechada carinhosamente com um barbante. Um barbante!

Naquele momento, me vi ao lado de meu avô girando o baleiro para escolher a bala Juquinha na padaria. Mais do que a barganha, saí agradecida pela memória, que há tanto estava perdida em algum lugar de meu gasto corpo.

O mesmo se deu quando fui ver um portfólio e a pessoa se desculpando, me explicou que havia trazido a pasta. Tão acostumada a ver tablets, o que invariavelmente precede ou sucede a pergunta “Qual a senha do wi-fi?”, foi mágico sair desse lugar-comum.

A pasta tinha sido confeccionada pelo Omar, artesão que o próprio Eugênio Mohallem, redator publicitário de mão cheia que sempre foi meu exemplo, recomendava em seu Manual do Estagiário, que eu li e reli mais de mil vezes.

Eu nunca tive uma pasta do Omar. Na verdade, só tive uma única pasta, que eu já nem sei onde foi parar. Mas lembro-me bem de quem eu era nessa época. Recém-formada e em meu primeiro emprego como redatora, eu me sentia em estado de graça por me pagarem tão somente para escrever. Vinha de anos como marketing em multinacionais.

O tragicômico da história é que a agência fechou um mês depois da minha contratação. Não, a culpa não foi minha, eu juro; mas do dono, que não acreditava em internet: supunha ser uma moda passageira. É, nostalgia é bom, só que sempre mantendo os olhos no futuro.

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