#DateRuim (Baseado em fatos surreais)

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Foto: Projetado por Freepip

Quando o caso eram relacionamentos, ela tinha lá seus princípios. Entre eles: nada de pagar motel, nem dividir, e fim de papo.

– Por quê?
– Oras, pagar o motel é passar atestado de baranguice! Me dá a sensação de que eu preciso pagar um homem pra me comer, explicava ela.

Dividir a conta, ok, mas também não era aceitável num primeiro encontro.

– Por que não no primeiro encontro?
– Se o cara não quer te impressionar nem no primeiro encontro, o que dirá nos próximos? Ou depois de casado? Vai ser ladeira abaixo! Homem só dá valor pra mulher quando precisa abrir a carteira, ensinava a moça.

Podemos dizer que três regras comandavam sua vida amorosa. As duas primeiras, já conhecemos e a terceira é bem esperada: sexo no primeiro encontro era impensável. Era preciso esperar no mínimo, três encontros para que um homem a levasse pra cama.

Não que tivesse medo de ser tachada de vagabunda ou algo do gênero (pelo menos, era o que dizia), mas achava que precisava de mais tempo e conhecer melhor a pessoa para ter certeza.

Seguia como uma bíblia tais mandamentos quando conheceu Carlos. Um aplicativo os aproximou e o rapaz já não gostou muito quando ela disse que “buscava um relacionamento sério por lá”. Logo ele, que não queria sequer assumir um compromisso com a própria vida. Acima dos 40 anos, gabava-se de não ter sucumbido ao capitalismo, pois sequer era dono de uma cadeira.

Casa, então, nem pensar. Ainda estava no esquema de dividir apartamento. Considerava seu trabalho um martírio sem sentido, em que desperdiçava seu tempo. Volta e meia ameaçava:
– Vou-me embora pra outro país e largo tudo!

Ela também não tinha curtido a resposta dele quando perguntou o que fazia naquele aplicativo.
– Ah, eu vim aqui procurar mulher.
– E achou?
– Eu percebi que tenho as mesmas chances aqui de achar alguém pra transar quanto tenho com as minhas amigas.

Alice. Sim, o nome dela era Alice, tinha ouvido respostas menos sinceras e mais educadas do que essa. No entanto, pensou que ela mesma devia ter tomado mais cuidado com suas perguntas. E foi dessa maneira, talvez por carência, que aceitou o convite de Carlos pra sair uma noite.

Vestiu-se como mandava um primeiro encontro: pra arrasar, com a dupla vestido vermelho e salto alto. Seu mandamento era sempre estar pronta para conquistar o boy, mesmo que ela não gostasse dele quando o visse cara a cara.

Chegando ao bar onde ele marcou, curtiu o lugar, daqueles que não vende cerveja, mas drinque, pois é bem mais descolado. Antes que localizasse Carlos em meio à turba, viu o ex de mãos dadas com uma moça mais jovem do que ela. Não havia vestido vermelho nem salto que batesse aquela beleza pé no chão sem maquiagem.

Foi só então que visualizou Carlos, que estava do lado de fora do recinto. Saiu apressada antes que fosse vista pelo par perfeito e à distância ainda, Carlos sorriu timidamente à sua aproximação. Não fossem os cabelos e o bigode que já começavam a branquear, diria-se que era um adolescente.

Após os cumprimentos e o “Me pareço com a foto?”, “Você se parece sim”, ele ofereceu a ela um gole de sua bebida, um Fitzgerald. Ah, era pouco. Igualmente pouco conhecedora de álcool e seus derivados, pediu logo ao garçom o mesmo que o dele, enquanto pedia a Deus que continuasse fora da vista de seu ex.

– Puxa vida, ele já está namorando e eu continuo aqui ainda nesses encontrinhos de aplicativo, dizia a si mesma enquanto se torturava.

Enquanto isso, Carlos se limitava a responder às perguntas dela.

– Eu morei fora por dois anos, ele disse.
– Meus pais não são daqui, ele repetiu.
– Quer um gole do meu Fitzgerald?, ofereceu novamente.

Alice tomou aquele Fitzgerald e mais outro e mais outro. Quando virou o quarto (ou seria o quinto?), percebeu que seu ex e a namorada já estavam fora de vista. Não só isso, mas que era feriado da Independência e que ela era uma mulher independente, que não devia satisfação a ninguém. Só a si mesma.

Com as fronteiras meio embaçadas e se sentindo alcoolicamente empoderada sentiu o cheiro do cabelo dele e resolveu se aproximar pra sentir o beijo. Foi ela quem deu.

Tomar a iniciativa também não era de seu feitio. Sequer recomendava às amigas. Mas foi ela quem convidou Carlos pra passarem a noite juntos. Ele não aceitou nem rejeitou, apenas se limitou a pedir a conta; que dividiram milimetricamente meio a meio.

Alice sugeriu irem para a casa dele, só que ele tinha acabado de se mudar e não tinha discutido essas questões com o novo roommate. Ela, por outro lado, não levava um desconhecido pra casa, então mesmo sob aquelas condições conseguiu inventar alguma desculpa.

A saída foi irem pra um motel. Não um motel, um hotelzinho que havia pelas redondezas. Lá enquanto escolhiam o quarto, Carlos mirou-a com olhos pidões, ela percebeu e preferiu logo esclarecer:
– Motel, eu não pago. Se quiser, pago o café da manhã. Mas o motel, não. É questão de princípios.

Frente à recusa, ele escolheu o quarto mais barato.

Na cama, Carlos achava a camisinha desnecessária, Alice não compartilhava da mesma opinião e, por fim, foi ela quem venceu a discussão. Também não demorou muito para que resolvessem o que foram fazer ali. Em seguida, veio a confissão:

– Já fazia sete meses que eu não transava, disse Carlos.

Alice não queria mentir, então se limitou a dizer:

– Nossa, você é meu tipo, sabia?

A resposta veio em seguida. Carlos quis ir embora imediatamente, pois corria o risco de dormir e não queria ter que pagar mais que as três horas contratadas. Era muito cedo ainda, então ela não pagou o café e nem ele ligou no dia seguinte. Nem nunca mais.

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