Azulzinho é a cor

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Azulzinho é a cor

24 de janeiro de 2018 Confissões Desabafo Escrita Literatura Mulher Sem categoria 0

Olhou os dedos com as pontas amarelas. Para despistar, lambeu-os. O gosto ainda era bom.

Desprevenida, viu o belo rapaz forte à sua frente. O trio regata, short e tênis, não negava: ele rumava para o crossfit pelo qual ela já havia passado.

Seu olhar era pra ele, mas o dele não era pra ela, e sim para a prova do crime que jazia vazio, inerte, inútil em sua mão.

Não precisou muito para sentir seu julgamento. “Que inferno! Uma mulher não pode ter seus desejos e querer vez por outra satisfazê-los?”, pensou embaraçada.

Passou as costas da mão sobre a boca, talvez algo ali a denunciasse; ou talvez o problema estivesse no decote, por isso repuxou e sacudiu seu vestido roxo, que avançava até os joelhos.

Por outro lado, talvez a questão fosse que ainda era dia. Não ficava bem admitir seus vícios assim, à vista de quem quer que fosse. E ela ousava, com desgosto, mas ousava.

Debaixo do sol forte continuou vacilante sua caminhada da vergonha, seguida de perto por sua sombra, que quase a tocava. Foi assim até encontrar o lixo mais próximo, quando finalmente se separaram.

Então continuou descendo a rua ela, sozinha, de volta ao posto de boa moça, enquanto lá ficou ele, seu pecado original: a embalagem azul do salgadinho.

 

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